Sentir um certo incómodo faz parte da experiência de ler um livro; há muito mais pedagogia na inquietação do que no alívio. Podemos mandar para o bloco operatório toda a literatura do passado para submetê-la a uma cirurgia estética, mas então deixará de nos explicar o mundo.

Irene Vallejo, in Irene Vallejo, in O Infinito num Junco: A invenção do livro da Antiguidade e o nascer da sede de leitura

Todos gostaríamos de viver vidas simples e descomplicadas. Em suma, de sermos felizes, podendo evitar os problemas que a vida naturalmente e forçosamente nos impõe. Mas, a vida humana é por natureza dura e muitos dos desafios que surgem ao longo da vida são complexos. A matemática é simples: problemas complexos, exigem respostas adequadas. A leitura é um dos poucos exercícios que nos permite compreender profundamente a complexidade da vida, de aprendermos e de nos questionarmos num espaço interior seguro.

Por esta razão, eu diria que a leitura é necessária. Ler é a maior ferramenta de aprendizagem. Os livros, como diria Irene Vallejo, explicam-nos o mundo e, sobretudo, dão-nos outras versões e possibilidades.

As histórias sempre fizeram parte da humanidade. Desde sempre, o ser humano gostou de ouvir e contar histórias para se entreter e também para ensinar. Mas, a partir do momento em que a humanidade inventou o livro, algo mudou para sempre. A nossa forma de imaginar e contar histórias alterou-se, bem como a nossa forma de as vivermos. Nascera a leitura.

Ler é vivenciar ou experimentar o que muitas vezes não poderíamos fazer de outro modo. Enquanto lemos, viajamos por outros tempos, países ou continentes. Atravessamos épocas e costumes. Vivemos emoções. Descobrimos sentimentos. Neste sentido, a leitura pode ser um grande prazer.

Mas a leitura é mais do que isso. Em todas as idades, a leitura é aprendizagem: introduz novos temas, outros modos de ver a vida e de interpretar situações. Na infância, a leitura estimula a imaginação e ajuda a conhecer o mundo e as emoções. Na adolescência, a leitura pode ser uma maneira de ter acesso a informação que, de outro modo, não poderia ser encontrada. Enquanto adultos, ler permite-nos continuar a descobrir, a analisar e confrontar narrativas sociais, preconceitos e ideologias. Enquanto lemos, conseguimos, por fim, colocarmo-nos na posição do outro, porque passámos tempo com ele. Ler permite-nos visitar emoções que vivemos nas nossas vidas pessoais, às quais, por vergonha ou outro, não tivemos acesso; e de nos abrirmos ao questionamento. Num livro podemos ouvir as palavras que precisámos ouvir de um companheiro, um irmão, um pai ou uma mãe; de derramar lágrimas que nem sabíamos estar escondidas em nós. Através das histórias, aprendemos lições de vida e ganhamos a coragem para dar o primeiro passo em direcção a uma vida melhor.

Nesse sentido, a leitura permite-nos fazer um trabalho de desenvolvimento pessoal importante, porque nos pede tempo e reflexão. E, em tempos de grandes desafios sociais, a leitura permite-nos alargar o nosso conhecimento, trabalhar a tolerância, alimentar a esperança, perceber que por vezes é preciso quebrar com certos valores; e encontrar soluções.

Num discurso feito no contexto do festival literário Hay Festival, no Reino Unido em Maio de 2026, a autora Katherine Rundell resumia de forma brilhante o que é a leitura e o que é isso do prazer da leitura e da necessidade da leitura:

“(...) A leitura proporciona-me uma verdadeira alegria física, é a minha actividade preferida e já escrevi muito sobre a necessidade do prazer da leitura na educação, (…) sobre como é uma característica distintiva de uma educação completa encontrar formas de mostrar que a leitura pode dar acesso a uma fonte inesgotável de prazer.

Mas também me preocupa que, por vezes, estejamos a limitar o significado do termo “prazer”.

(Prazer) nem sempre significa diversão.

Aprender é uma experiência estranha e dolorosa. É uma luta e uma frustração, e as epifanias são raras.

Por isso, não é prazer no sentido simples, tal como um bom copo de vinho é um prazer. Precisamos de falar com os jovens sobre a leitura por prazer, mas também sobre a leitura (enquanto meio) para ultrapassar obstáculos e em nome da justiça, a leitura para a emancipação, a liberdade intelectual e para ter força para lutar nas arenas da mente.

Estes são tempos sombrios. Precisamos de pessoas resilientes, precisamos de resistência e de um vasto leque de conhecimentos; e (precisamos) de pessoas com capacidade para sintetizar com rapidez suficiente e para compreender o que nos está a acontecer. (…) Embora seja uma alegria para milhões de nós, para todos nós, a leitura é uma forma de poder. Precisamos de ler para ter poder.”

Ler não deveria ser visto como uma obrigação escolar ou um simples passatempo nem, num outro extremo, como algo feito apenas por pessoas eruditas. Mas efectivamente, ler é algo que se aprende. Ler exige de nós. Em primeiro, ler exige tempo num momento da sociedade em que se deixou de ter tempo. Ler exige paciência. Nem sempre conseguimos perceber ou entrar na escrita de um autor nos primeiros parágrafos ou páginas. Ler exige de nos abrimos ao mundo, a outras ideias e aos nossos próprios monstros. O exercício de leitura fortalece o conhecimento e permite-nos criar ligações e encontrar um sentido entre experiências de vida, a sociedade, o outro ou até entre disciplinas.

A história de um livro não se resume à história que o autor escreveu, bem como a leitura não consegue ficar apenas no tempo de leitura que dedicámos a uma obra. Dentro de cada história há muitas histórias e há também a história de cada um de nós, que vamos construindo passo a passo, ideia a ideia.

Parece-me evidente a necessidade de, na escola, ao longo de todo o ciclo de aprendizagem das crianças, criarem-se espaços próprios dedicados à leitura. Introduzir ou abordar a leitura no contexto da aprendizagem de uma língua não é suficiente e, possivelmente nem adequado. Aprender uma língua, escrever e ler são exercícios distintos. A leitura merece uma atenção distinta. E, enquanto adultos, é preciso criar espaço e tempo de leitura porque ler é conhecer, perceber, questionar e se libertar.


Traduzido do português para inglês e francês com DeepL.com (versão gratuita)