A responsabilidade do escritor é tão pessoal quanto a responsabilidade penal. Eu, no entanto, decidi claramente dedicar-me à literatura militante.
Luis Sepúlveda, in Letteratura nei tempi inquieti: Scrivere, immaginare, cambiare il mondo
A escrita vem de muitos espaços: da paixão, da dor, da imaginação abundante. E há uma escrita que é necessidade pura de denúncia e desejo de mudança: a escrita militante.
Em "Beloved", Toni Morrison desenha um retrato interior profundo, individual e colectivo, do que foi a mais desumana e cruel existência do ser humano: a escravatura. O que interessou a Morrison foi explorar a vida interior inspirada na escrava Margaret Garner (1833-1858), de como poderia viver, experienciar e sentir uma mulher que vivera na escravatura desde sempre e que, após a sua fuga e perante o risco de captura, matara uma filha e tentara matar os restantes filhos. Quem poderia ser essa mulher? Como viveria? O que leva uma mãe a matar um filho seu? E o que estará por detrás desse acto? Loucura, amor, história colectiva?
Sobre a história de Garner, Rebecca Carroll do New York Times escreveu:
“A história de Garner ficou gravada na história como sendo simultaneamente sensacional e singular. Ela colocou em evidência uma questão que permanecia sem resposta nos lares e nos corações dos brancos na América pré-Guerra Civil: seria a escravatura um destino pior do que a morte? Garner, com uma faca na mão, deu uma resposta impossível de ignorar.”
E é esta resposta que Morrison explora, porque não é possível ignorar o que foi a vivência da escravatura para os próprios escravos. É preciso olhar para estes momentos da história – os que aconteceram antes e os que estão a acontecer hoje – para nos questionarmos enquanto indivíduos e sociedade. A escravatura aconteceu a pessoas a quem lhes foi negado tudo, até o sentimento mais básico do ser humano, como o amor ou até um nome próprio.
“Arriscado, pensou Paul D (um antigo escravo), muito arriscado. Para uma mulher que tinha sido escrava, amar algo assim tanto era perigoso, especialmente se fossem os seus filhos que ela se tinha resignado a amar. O melhor, ele sabia, era amar só um pouco, tudo, só um pouquinho, para que, quando lhe partissem as costas ou a enfiassem num saco de corvina, bem, talvez ainda restasse um pouco de amor para o próximo (in Beloved).”
As questões que o romance de Toni Morrison levanta inevitavelmente continuam actuais. O dono do escravo detinha todo o poder sobre os benefícios da mão-de-obra escrava. Então, porque é que precisava de tratar com tal desumanidade o escravo? O que é que há no ser humano que o leva a querer dominar a tal ponto e a cometer tais atrocidades? Como é que se convence uma sociedade inteira de que outro ser humano tem o mesmo valor que o gado? E, por outro lado: de que matéria são feitas essas outras pessoas que tiveram um papel na abolição da escravatura? E, em que ponto, uma realidade que era aceite por todos torna-se inaceitável? Será no dia em que teremos a capacidade para responder a estas questões, que conseguiremos mudar estruturalmente a nossa sociedade e evitar todas as outras escravaturas. Porque elas ainda não pararam.
No seu “O Livro das Rainhas”, Joumada Haddad conta a história individual de quatro mulheres da mesma família que atravessaram os vários conflitos que afectaram ou afectam ainda hoje o Médio Oriente, desde o genocídio arménio do início do século XX, passando pelo conflicto Israel-Palestina e Líbano-Síria.
“A verdade é que as pessoas precisam de ser mais incomodadas,” conta o narrador de Haddad. “Mais sacudidas da sua indiferença nauseabunda. Não é a criança de três anos massacrada que deve pedir desculpa por rebentar a bolha de conforto das pessoas ilesas. Essas pessoas é que devem pedir-lhe desculpa, a ela e a todas as vítimas inocentes, por permitirem o massacre. (...) faríamos melhor em concentrarmo-nos na grande questão: como podemos evoluir de humanos para humanitários (in O Livro das Rainhas)?”
Em “Quem Matou o Meu Pai”, Édouard Louis utiliza a história do seu próprio pai para denunciar a ineficácia, a ignorância e a violência do sistema social e político francês. “A história do teu corpo acusa a história política,” diz Louis do seu pai.
A política não é inocente. Os cidadãos não são entidades abstractas. Cada decisão tomada tem consequências. Estas três obras, como tantas outras, mostram-nos que por detrás de cada conflito está um sofrimento pessoal, um destino ao qual não se pode escapar. Por detrás dos números, está um rosto, um nome e uma história individual. Mas essa história é também a história da humanidade, que tem tanta dificuldade em reinventar-se e em se questionar. A escrita de Morrison, Haddad e Louis é muito dura, é difícil de ler. Nenhum dos seus personagens foi poupado ao sofrimento. Mas é importante relembrar que Sethe não é apenas inspirada na vida da escrava Margaret Garner, ela é cada escravo; tal como as quatro rainhas de Haddad foram inspiradas na história das mulheres da sua família e na sua; como Louis fez o relato do seu próprio pai e da sua própria história. E são estas histórias que mostram a urgência de continuar a escrever, a ler e a discutir, porque ainda não conseguimos criar uma fenda numa história que perpetua e acentua desigualdades, ignora o impacto das políticas nas histórias individuais e teima em não condenar os decisores políticos. E, sobretudo, porque ainda não conseguimos criar uma sociedade onde cada pessoa consiga viver bem e em paz, em condições dignas e em harmonia consigo mesma, o outro e o meio-ambiente.










