Pouco tempo depois de Aquilo que eu Amava ter sido publicado, quando eu ainda era uma jovem de vinte e poucos anos, emprestaram-me a que viria a ser a minha primeira leitura de Siri Hustvedt. Foi paixão e admiração à primeira leitura. Aquilo que eu Amava foi o livro que eu mais recomendei e ofereci até aqui e nunca mais deixei de seguir as publicações e a autora. Siri Hustvedt é, na verdade, a única “pessoa famosa” que sigo e admiro à distância e de forma regular. O único livro que alguma vez reservei antes de ter sido lançado foi o seu Fantasmas, onde faz o luto e partilha a sua história de vida e amor com o seu marido, o falecido escritor, poeta e realizador de cinema, Paul Auster.
Este ano, vinte anos mais tarde, reli Aquilo que eu Amava para o meu Clube de Leitura. Percebi de imediato porque é que Siri Hustvedt, a autora e a mulher, me fascinou e fascina tanto: a sua capacidade de observação e de narração são simplesmente extraordinárias. Siri Hustvedt era, nas palavras do seu marido, “a mais intelectual da família”. Fascina-me a sua capacidade de observar, analisar e encontrar palavras para cada gesto, cada emoção e maravilha (boa e má) da vida humana. O seu vocabulário parece ilimitado.
Em paralelo, o amor entre Siri Hustvedt e Paul Auster era o que, visto de longe, me parecia o mais perto do amor que eu buscava e para o qual, ao contrário da autora, nunca consegui encontrar palavras. Recentemente, ao ler Fantasmas, confirmei esta minha suspeita. No meu entender, amor tal como eu o imagino, chamemos-lhe de amor entre “almas-gêmeas” é um dos sentimentos mais poderosos e maravilhosos que existe. O amor descrito por Siri Hustvedt é genuíno, no sentido em que não pretende ser idealista ou perfeito, mas sim verdadeiro. Conhecemos e vemos o outro tal como ele é, podemos não gostar de algumas das suas características, mas também elas fazem parte do todo. Há um eu, há um tu, mas há também (ou sobretudo?), um nós, que se constrói através do tempo, em cumplicidade, na partilha, amizade e da vivência dos momentos bons e daqueles em que sofremos muito. Eu penso que um dos pilares deste amor é a admiração. Penso que é a admiração que mantém viva em nós a tal chama, que faz com que nos sintamos, ao longo do tempo, tão ou mais apaixonados pela pessoa do que quando a conhecemos. Siri Hustvedt descreve-o tão bem:
April 5 (2024)
“’I wonder how many times we’ve made love?’ Paul said to me after we talked about funeral and memorial arrangements. ‘Thousands of times,’ he said, and I said yes. ‘And it’s always fun,’ he said, and I said ‘Yes, yes it is.’”
“(…) February 23, he and I met. The magic meet. (…) And then, the same night, after hours of talk, he saw me.”
“You, my interlocutor. You. My you. I was your you. The back-and-forth, a teeter-totter of confession, argument, desire. I and you. You and I. And now silence. I am laboring ferociously to acknowledge it. Being without you.”
“I will speak more plainly: Yes, I am mourning Paul, but most of the time, I am mourning Siri e Paul. I am mourning AND. I am mourning how the AND made me feel in the world. That AND where he and I overlapped.”
“I felt more vivid to myself when I was with Paul.”
“We find ourselves in the face of others. In your eyes I see what I am for you. In Paul’s face, I saw myself as a radiant person. I think he saw it in my face too – that he shone for me.”
“Affinity is not complete agreement.”
“Yes, we were shawls for each other, but we took turns doing that job. I held him too.”
Enquanto li Fantasmas, chorei, ri, emocionei-me, reflecti, pensei na minha escrita e nas minhas dúvidas, tive mais força, comecei outros textos. Ontem quando regressei do café onde tinha estado a ler, senti-me tão inspirada que escrevi mais de dez páginas de seguida.
Vi a Siri Hustvedt duas vezes em Lisboa, há cerca de 15 anos, numa ocasião num pequeno encontro na Universidade de Lisboa (?) e outro onde ela esteve acompanhada de Paul Auster e do escritor Sul-Africano e Prémio Nobel da Literatura, J. M. Coetzee. Espero encontrá-la mais vezes ao vivo. Espero poder continuar a lê-la e ouvi-la por muitos mais anos. Em tempos, os livros que tenho da autora viveram lado-a-lado com os de Paul Auster, mas quando reorganizei a minha colecção de livros por ordem alfabética, passaram a viver mais longe um do outro. Depois de ler Fantasmas, voltei a olhar para a minha estante: os seus livros pertencem o mais próximo possível, como eles tanto gostavam de estar um com o outro.









