É comum dizer-se que para aprender a escrever, é preciso ler muito. Eu compreendia na teoria o sentido desta ideia, mas na prática tinha dificuldade em melhorar a escrita, apesar de ter sempre lido muito.

Até que percebi: também é preciso aprender a ler.

Enquanto escrevo, lembro-me de um podcast que ouvi há pouco da Joanna Penn (The Creative Penn), onde ela dizia que a primeira leitura é pelo prazer, a segunda é para analisar ou aprender.

Há seis anos que tenho um clube de leitura. Começámos pouco tempo antes da pandemia do Covid-19, ainda nos encontrámos no exterior, em modo proteção e depois de eu ter partido para Estrasburgo em 2021, continuámos à distância. Foi com o meu Clube de Leitura, e outras discussões literárias com amigos, que eu aprendi finalmente a ler. Enquanto estamos embrenhados na leitura, há livros que dão vontade de ler de uma assentada – como os da Valérie Perrin. Outros autores, como Proust, dão vontade de ler o mais lentamente possível, de preferência numa tarde de final de verão, num parque. De qualquer modo, com uma primeira leitura, é sempre difícil analisar e aprender.

Já tentei muitos métodos de notas. Já fui inteiramente contra o sublinhar um livro, já sublinhei (a lápis, também não exageremos). Hoje, coloco post-its pequenos. Os post-its permitem-me marcar o parágrafo ou frase que me marcaram sem interromper a leitura e, depois de ter terminado o livro, faço tempo e volto a eles. Mas não é importante seguir sempre a metodologia. Com Água Viva, da Clarice Lispector, ficava tão inspirada para escrever com cada frase que lia que ia de imediato apontando as frases e escrevendo.

Para o Clube de Leitura (e as minhas outras leituras também), leio uma vez, releio as passagens que mais gostei e faço um resumo no caderno que tenho destinado apenas a esse fim. É um clube no feminino, estamos juntas já vão seis anos e é um dos espaços mais bonitos que tenho na minha vida. Até à distância, mantemo-nos próximas e, neste momento, até temos um projeto que por enquanto manterei em segredo. Quando eu regresso a Portugal, encontramo-nos. Há uma afinidade literária, e não só, entre nós, que me aquece o coração. Mas a leitura está no centro da nossa amizade (e irmandade, pois a minha irmã faz parte do Clube). Já passámos tardes inteiras a discutir um livro. Já fomos em excursão a Lisboa, com uma lista de livrarias a visitar e o José António Agualusa para ouvir.

A leitura e a escrita para mim são quase só uma e a mesma coisa. Paixão, prazer, vida.

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