Dois poemas, auto-estima e outras coisas

Estava a ler o livro do Thomas d’Ansembourg “Être heureux ce n’est pas nécessairement confortable” e veio-me à cabeça o egoísmo (inconsciente) que podemos viver quando não estamos bem.

A partir daí surgiu-me a frase:

“A dor é egoísta.”

Tentei transformá-la em poema, pôr em palavras simples esse processo inconsciente que vivemos e que tanto afecta as nossas vidas. A palavra-chave que apareceu quase no final do poema, menos poética do que se poderia esperar, foi a seguinte:

"Auto-estima"

Thomas d’Ansembourg argumenta precisamente que em 80% dos casos que aparecem em terapia, por detrás do aparente problema (por exemplo, a morte de um familiar, um conflito parental ou em casal, etc.), está a falta de auto-estima e a incapacidade de se avaliar a si mesmo.

Eu lembro-me, alguns meses depois de começar a fazer terapia, ter percebido que tinha uma grande falta de auto-estima. No primeiro encontro com a minha terapeuta, eu tinha precisado que não sentia vontade de reflectir sobre a causa dos meus problemas, pois por aquela altura já tinha consciência dos vários condicionamentos que tinha desenvolvido ao longo da minha vida. O que eu queria era trabalhar, no verdadeiro sentido da palavra, para os resolver. Portanto, esse foi desde o início o nosso espaço de trabalho. Assim, quando cheguei a determinada sessão e disse:

“Eu percebi que tenho uma grande falta de auto-estima,”

a minha terapeuta não colocou questões para explorarmos de onde vinha a tal falta de auto-estima. O que ela me disse, com toda a simplicidade, foi:

“A auto-estima é uma questão de se fazer aquilo que se gosta.”

Na altura, não percebi a profundidade daquelas palavras, mas confiava na minha terapeuta como em poucas pessoas antes. Portanto, como ela me aconselhou, fui fazer aquilo de que gosto. No meu caso, isso começou com coisas pequenas: passar a manhã toda num café a ler ou a escrever, fazer uma longa caminhada, ir à piscina ou até ir fazer uma massagem. Eram coisas insignificantes, mas que, sem eu saber, me transformaram a vida.

Meses mais tarde, queria a vida que eu passasse um dos maiores desafios até então e, ao contrário do que seria de esperar, e pela primeira vez na minha vida, a minha vida não se desmoronou. Ou, nas palavras da minha psicóloga:

“Eu aprendera a cuidar de mim própria.”

Parece-me que a auto-estima ou a confiança em si, ou são consideradas insignificantes ou como a chave para todo o sucesso pessoal. Eu penso que não são nem um nem outro. Ou seja, não são insignificantes no sentido em que lhe devíamos atribuir o devido valor e o impacto que têm no nosso bem-estar. E, por outro lado, não são o milagre do desenvolvimento pessoal porque não funcionam como uma receita mágica que se toma uma vez e já está.

Noutra ocasião, ouvi o Thomas d’Ansembourg dizer que esta questão de saber gerir os nossos mecanismos internos é algo que tem que ser trabalhado no quotidiano, ou seja, como uma questão de (chamemos-lhe assim) "higiene emocional." E, não é sempre fácil, mas quanto mais criarmos esse espaço, mas natural será.

Esse espaço pode ser criado de várias maneiras, nomeadamente através de:
• acompanhamento de um(a) terapeuta;
• leitura, seminários, formações e/ou discussões relevantes;
• introdução de pequenos exercícios diários;
• meditação, etc.

O último conflito íntimo que tive serviu como um alerta de que esta coisa que é o bem-estar e a felicidade requer um cuidado regular como uma planta. Mas, da minha experiência, cada esforço vale a pena, pois conduz-nos cada vez mais perto da pessoa que somos no nosso íntimo profundo e à nossa realização pessoal. No final da minha reflexão, escrevi um segundo poema. Desta vez não me concentrei no egoísmo da dor, mas tentei imaginar um mundo onde cuidássemos cada um de nós mesmos e, logo, do outro e do mundo, onde enfrentássemos os desafios e fluxos da vida de coração aberto e sentíssemos cada passo que vamos dando.


Traduzido do português para inglês e francês com Deepl.com (versão gratuita)