Ontem, li alguém da minha rede – falando no contexto dos novos desafios colocados pela Inteligência Artificial – dizer que a autoconsciência, o conhecimento, a educação e a terapia são privilégios de poucos. Ao ler isso, fiquei chocada. Compreendo a minha reação instintiva, não queria que fosse verdade, mas sei que é. Mas, como muitas coisas que estão erradas nas nossas sociedades hoje, não deveria ser assim. Fui a primeira da minha família a ir para a universidade, seguida por dois outros primos e pela minha irmã. Fazemos parte da primeira geração com formação académica em Portugal, mas somos filhas e filhos de pais e famílias com muito pouca formação; por isso, apesar de ter ido para a universidade, levei décadas a aprender a cuidar de mim mesma, do ponto de vista emocional e mental. Os meus pais ensinaram-nos o valor do trabalho árduo, do respeito e da família. Tivemos sorte, considerando onde e quando nascemos, mas a saúde mental, o bem-estar e a felicidade estavam longe dos valores das nossas famílias naquela época. A vida consistia em ter pão na mesa de forma sustentável. Por outras palavras, ter um bom emprego.
Comecei a fazer terapia no ano em que completei quarenta e um anos. Teria sido maravilhoso ter começado vinte anos antes, mas não tem mal, pois a terapia mudou a minha vida de forma radical e sou grata por isso. Por exemplo, embora sempre tenha sonhado em escrever, eu literalmente não me autorizava a fazê-lo. Foi primeiro através da terapia e depois da autoconsciência que finalmente consegui aceitar e abraçar o facto de que nasci para ser escritora, que essa é a minha vocação, a forma como me expresso, um estilo de vida. Todos devem ter direito a um padrão de vida adequado, conforme estabelecido pela Declaração dos Direitos Humanos e pela Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança. Pois somente quando temos uma vida digna é que podemos ter acesso à educação, à terapia e aos benefícios que vêm com elas. E é isso que desejo para todos.
Nos anos antes da terapia e da autoconsciência entrarem na minha vida, eu tinha uma coisa que me proporcionava bem-estar, que descobri quando era uma jovem estudante universitária em Inglaterra: caminhar na natureza. Eu não refletia sobre o acto em si mesmo ou sobre os seus benefícios, simplesmente me sentia bem. Caminhar, seja em cidades ou na natureza, continua a ser uma das minhas atividades favoritas até hoje e tenho muitas boas recordações: umas férias a caminhar na Escócia, percorrer uma parte do Caminho de Santiago em Espanha com um grupo de amigos ou passear a minha linda cadela Afrodite, já falecida, pelas falésias costeiras do sul de Portugal.
Hoje vou caminhar com uma amiga. Normalmente fazemos uma das caminhadas pela floresta perto da casa dela e é sempre um verdadeiro prazer, especialmente porque não fazemos isso com frequência. No meu dia a dia, como moro em Estrasburgo, caminho pela cidade, o que também adoro. Temos a sorte de ter o rio, parques e de estar muito perto de trilhos na natureza e ciclovias, e aproveito isso ao máximo. Faço longas caminhadas para ir a alguns dos meus cafés favoritos, ao mercado ou apenas para esticar as pernas e sentir o movimento no meu corpo depois de um dia sentada a trabalhar ou a escrever.
Muitas vezes, o que cria saúde e bem-estar é facilmente acessível, nomeadamente a natureza, o exercício físico e a boa companhia. Mas quando não nos sentimos bem ou quando temos demasiadas preocupações, mesmo estes prazeres simples da vida parecem difíceis de alcançar. As mudanças pessoais significativas que consegui fazer na minha vida são uma combinação de várias coisas: amigos que me apoiam, uma excelente terapeuta e a vontade de estar melhor. Pela minha experiência, a autoestima é um pilar fundamental do bem-estar e, como aprendi com a minha terapeuta, não é um conceito abstrato, trata-se de fazer o que é bom para nós, as coisas de que mais gostamos. Quando ela me disse isso pela primeira vez, pareceu-me um pouco vago, para dizer o mínimo, mas confiei na minha terapeuta, fui em frente e experimentei. Autorizei-me a passar uma manhã inteira num café a ler um livro, fui dar passeios, tomei longos banhos e, no final, quando menos esperava, percebi que tinha desenvolvido uma boa autoestima. Por vezes é tão fácil quanto isso, se ao menos nos permitirmos.






