O que acontece quando lemos um livro que não gostamos

No ano passado aconteceu-me ler dois livros de que não gostei mesmo. Há alguns anos atrás, talvez tivesse desistido a meio da leitura, mas uma vez que li os dois livros para o Clube de Leitura, isso não era uma possibilidade. Foi uma sensação estranha. O primeiro livro dos dois despertou quase raiva em mim. Não gostei da escrita, não me identifiquei de todo com os personagens. Parecia-me uma espécie de tortura viver na pele de uma pessoa rancorosa, no primeiro caso e no de uma mãe demasiado protetora e manipuladora, no segundo caso.

Na altura em que li esse primeiro livro de que não gostei mesmo, discuti com a minha irmã sobre que critérios podemos utilizar para determinar que não gostámos de um livro. Um deles pareceu-nos particularmente relevante: o de não recomendarmos o livro a ninguém. E, de facto, não recomendei nem penso recomendar nem um nem o outro livro a quem quer que seja. Porém, este aspeto fala apenas da minha experiência enquanto leitora, ou seja, do prazer da leitura. Se eu considerar o ponto de vista literário ou de exploração da experiência humana, é possível dizer, eu não gostei do livro, mas ainda assim, aprendi algo. A verdade é que sobretudo o primeiro livro, deu uma discussão fantástica. E, no caso do segundo livro, a narradora faz-nos viver bem o tipo de amor daquela mãe em particular, um desejo tão obsessivo de proteger, do seu ponto de vista, a sua filha, que não olha a meios, incluindo provocar o evento que leva à separação da própria filha do seu marido.

É mais fácil quando lemos um livro onde aprendemos a ultrapassar dificuldades, a conhecer a empatia e a compaixão pelo outro, a encontrar inspiração na luta pela injustiça. Mas isto, afinal de contas, fala apenas de quem eu sou como leitora. Eu procuro ler para me maravilhar com as palavras, mas também porque eu quero acreditar no bom da humanidade. Eu gosto de ler sobre personagens que olham para o belo da vida apesar do sofrimento, sobre personagens sábios, amores profundos, histórias de questionamento, luta e descoberta. Por vezes, descubro essas histórias de que preciso na ficção literária, nos grandes romances por assim dizer, outras, numa história de fantasia. Há autores que me deslumbram com a sua escrita e a história passa para segundo plano, há outros que me tocam pela sua sensibilidade e o tipo de personagens que constroem, há outros ainda que me elevam o coração e me encorajam a continuar a lutar por um mundo melhor.

Enquanto leitora, é mais fácil deixar-me levar por um romance com o qual me identifico, mas ler um livro do qual não se gosta, é como conseguir discutir com alguém que têm ideais muito diferentes dos nossos e, por vezes, isso também é necessário. No final, até podemos manter a nossa posição, mas ouvimos o outro, percebemos o que nos incomoda tanto na sua opinião e até aprendemos um pouco mais sobre nós mesmos. Aqueles dois livros que li no ano passado, incomodaram-me, mas também me confirmaram o sentido de certos valores que para mim são fundamentais. Não, eu não gosto de alimentar o rancor, acho o rancor um dos sentimentos ou emoções mais feias da humanidade, torna-nos egoístas, fechados sobre nós mesmos e impede-nos de viver. E não, eu não considero saudável proteger-se em demasiado as crianças. Amá-las muito, sim, acarinhá-las muito, sim, ir até ao fim do mundo pelos nossos filhos, sempre, mas protegê-los até sufocá-los, impedindo-os de viver a sua própria vida, não, nunca poderei defender isso.

Afinal, quando lemos um livro de que não gostamos, acontece muita coisa.

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